sexta-feira, 23 de março de 2012

Caracteres das dores de Maria


Os caracteres distintivos das dores da santíssima Virgem têm uma relação estreita com as fontes de que tiveram a sua origem. Assinalemos alguns deles. O Seu estado far-nos-á compreender mais o amor que Maria nos testemunha pelas Suas dores e excitar-nos-á a corresponder-Lhe por um amor recíproco mais extenso e mais generoso.

Estes caracteres são em número de quatro.

1- O primeiro destes caracteres particulares das dores de Maria foi que eles duraram toda a Sua vida. A dor que a nós se apega, algumas vezes deixa-nos sentir menos fortemente o seu aguilhão.

A desgraça que persegue um homem no decorrer de toda a sua vida parece, em certas ocasiões, fatigar-se de o perseguir, e muda então de direção, como se renunciasse à sua presa, ou como se quisesse conceder-lhe algum descanso. Mas "para Maria tal não se deu, diz o Pe. Faber, a dor era-Lhe como inerente".

"Quando Deus quer consolar uma alma, Ele a inebria, disse Mons. Gay, mas, quando Ele quer desolar uma delas, Ele a tritura".

"Ele me estabeleceu em uma aflição tão profunda, que permanece o dia inteiro", dizem os livros santos.

De que se trata?... Da sexta-feira santa, em que morreu o Salvador, depois de haver passado pelo crisol de Sua Paixão. Mas este dia começava desde a véspera e, para Maria, ao menos, Ele tinha um dia posterior. A véspera era o Getsêmani; o dia seguinte era o santo sepulcro, ou , para melhor dizermos, esta véspera era a vida terrestre e humilhada de Jesus; e este dia seguinte eram todos os anos que Maria ainda devia passar na terra sem Ele.

O Calvário era um círculo em que tudo se concentrou: o passado, o futuro, o céu, a terra e o próprio inferno com o seu ódio, a terra com os seus crimes, o céu com os seus esplendores; mas o ponto central destes raios tão divergentes era o coração triturado de Jesus e o coração desolado de Sua Mãe.

2- Mas as dores da Virgem não eram somente de todos os instantes de Sua vida; elas também cresciam continuamente. Mais familiar se Lhe tornava a visão dos sofrimentos, mais Ela sentia o seu doloroso amargor. Quando os primeiros ventos da tempestade começaram a soprar sobre o Seu coração, Ela apertou contra ele o Seu Jesus. Ele Lhe parecia mais amável que nunca. Deste modo decorreram os doze primeiros anos. Depois vieram os outros dezoito anos, em que cada palavra, cada olhar, cada movimento de Jesus estavam repletos de mistérios divinos.

Finalmente, chegaram os três anos do ministério público do Salvador e as Suas palavras, as Suas obras, os Seus milagres pareceram carregar o mundo de mais belezas sobrenaturais do que Ele podia suportar. E então, ó dor, os homens se precipitaram com furor, para extinguir esta luz que os feria com o seu brilho e fulgor.

A medida que crescia assim a beleza de Jesus, crescia igualmente o amor de Maria, e com o Seu amor crescia a Sua agonia. Ah! é que a presença de Jesus se tornara para Ela um hábito do qual não podia se afastar sem deixar de viver. E é assim que os Seus sofrimentos aumentaram mais depressa do que crescem as plantas na primavera; e eles aumentariam com tanto maior rapidez, quanto mais se aproxima o termo fatal.

3- O terceiro caráter das dores de Maria é que Ela suportou tudo voluntariamente por amor. Ó Deus, mil vezes misericordioso e clemente, tereis, porventura, depositado esta coroa, este fardo, esta montanha , este mundo de aflições sobre a cabeça de Maria, a Vossa imaculada e a privilegiada do Vosso Coração, se Ela mesma, vendo Jesus carregado por Vós de iniquidades, não Vos tivesse pedido instantemente que A deixásseis participar deste cargo?...

Quando a dor atinge aquilo que amamos, sobretudo aquilo que amamos infinitamente mais do que a nós mesmos, quando Ela não só a atinge, mas o encerra, o esmaga, o penetra, o inunda, o desola, e acaba por matá-lo, proibir então ao amor de sofrer (supondo-se que isto fosse possível), seria impeli-lo a um estado tão violento, e infligir-lhe um suplício tão grande que os sofrimentos mais atrozes, recebidos do objeto amado, ao lado deles, pareceriam um refrigério e uma libertação.

Sim, Maria devia sofrer! Seu amor a Deus e o amor que Deus Lhe tem o exigiam.

Não poderíamos conceber uma mãe sem lágrimas ao lado de um filho ensangüentado, e nem para Deus e nem para nós seria admissível tal suposição.

Qualquer coisa teria faltado eternamente à beleza moral de Maria, se Jesus a tivesse subtraído a esta imolação, pela qual Ele resgata o mundo. Parece que, amando-A por tantos títulos, Ele não A teria amado até ao grau supremo do amor, pois que Lhe teria recusado dar esta grande e alta prova do Seu amor, que consiste em sofrer por aqueles que amamos, e em sofrer por amor.

Aliás, não há mérito onde não há amor habitual de Deus. Se as dores da Santíssima Virgem não tivessem tirado a Sua origem de Seu amor, elas não teriam sido meritórias: do excesso de amor vinha o excesso de sofrimento.

4- Um quarto caráter das dores de Maria é a resignação com que ela suporta o peso de angústias que sobre Si se acumulam. Nada podemos imaginar de maior do que a violência dos tormentos de que foi torturado o coração maternal desta Virgem Santíssima.

"Mas, não! enganamo-nos, diz Santo Amadeu; acima dos sofrimentos e das dores de Maria há qualquer coisa de maior e de mais admirável - é a coragem com que Ela os suporta. O prodígio de Sua resignação tão calma eleva-A infinitamente acima do prodígio dos Seus sofrimentos. Vede: a Sua aflição está no auge, e, entretanto, Ela não se entrega a gemidos. O que Ela sofre é inexprimível, e, no entanto, Ela não está abatida - Ela fica de pé e imóvel, com uma constância e uma grandeza de alma que ultrapassam a grandeza do Seu sofrimento".
(Sto. Amadeu: Homil. 5 de mart. B. Virg)

E Santo Anselmo acrescenta:

"A Sua face não manifesta qualquer sinal de impaciência; os Seus lábios não proferem uma só palavra de murmúrio, de indignação ou de vingança; o Seu coração está repleto de amargura, e di-lo-iam impássivel; a Sua alma está abismada de dor e as lágrimas misturadas de lamentos. Ó maravilhoso acorde de pudor e de coragem, de paciência e de amor! A mais pura, a mais delicada e a mais tímida de todas as virgens é a mais magnânima, a mais heróica de todas as mulheres".

Em Sua alma mais do que crucificada é impossível descobrir-se o menor traço de indignação. Ela não faz o mínimo apelo à justiça; Ela vê tudo, mas só olha uma coisa: Jesus. O Seu coração se entrega à justiça divina, com a doçura e a resignação de um cordeiro, e Ela Se Lhe entrega toda inteira, com Ele e como Ele.

Quantos a desejar qualquer castigo para os outros, quaisquer que sejam, dos crimes que causaram ou cercaram este grande sacrifício, Ela não teve necessidade, nem o pensamento e, muito menos ainda, a tentação.

Por toda parte e sempre, mas sobretudo no Calvário, Ela é a "mulher", a mãe, a Virgem clemente, a advogada dos pecadores, a Mãe de Misericórdia.

Ó Maria, incomparável Virgem e Mãe, possa tanta ternura tocar enfim o meu coração e penetrá-lo de reconhecimento e de amor! Para me salvar e para me santificar é que sofrestes tanto!

Eu não posso reconhecer um tal benefício senão pelo amor. Fazei, pois, que a minha alma seja penetrada por ele e que eu viva dele, até à minha hora derradeira.

(Por que amo Maria, pelo Pe. Júlio Maria, continua com o post: A imensidade das dores de Maria)

As fontes das dores de Maria




Após a consideração das dores  de que foi repleta a vida da Rainha dos mártires, e fizeram da Sua existência um martírio prolongado, e de cada um dos Seus dias uma etapa para o Calvário, detenhamo-nos nos pormenores dos Seus sofrimentos.

De fato, em parte alguma o amor cintila tão puro, tão desinteressado e tão atraente, como através das lágrimas e das dores.

Aliás, a Virgem não sofre senão por amor. O Seu corpo virginal não está crucificado, mas, ao contrário, que gládio trespassou a Sua alma! gládio de duplo gume, afiado incessantemente pelo Seu amor a Jesus e o Seu amor aos homens.

Antes de tudo, quais eram as fontes principais destas dores?... Quatro principalmente:

A primeira, era ver Jesus morrer, e não poder morrer com Ele. Não há uma só mãe que, em semelhança circunstâncias, não tivesse desejado vivamente a morte. Para um coração triturado, a morte é preferível à vida. E, se a morte se apresenta, não como uma separação, mas como uma união realizada mais íntima, que mãe aflita a não consideraria uma inexprimível favor?...

Tal se dá com Maria. Jamais um filho foi, aqui na terra, tão querido de sua mãe, como Jesus de Maria; jamais um filho foi tão bom e tão belo, tão amável e tão verdadeiramente "filho" como Jesus.

Os direitos do pai e da mãe concentravam-se, ao mesmo tempo, no coração da Virgem. Ela só O havia gerado, e isto sobrenaturalmente, de tal modo que Jesus era como duas vezes Seu Filho. E este Seu Filho estava revestido, ao mesmo tempo, de todos os atrativos da humanidade e de todos os encantos da divindade.

Que amor veemente, digamos melhor, que paixão divina não devia excitar, no coração de Maria, a contemplação das amabilidades infinitas de Jesus!

E este Filho, tão divinamente amado, partia desta vida, partia, deixando a Sua Mãe só, desolada, com o coração transbordando do mais veemente desejo de segui-lO, e com a Sua alma cheia de dolorosas lembranças do Calvário.

Jesus ia-se embora... Desde então Ele não estaria mais com Ela, para falar-Lhe do céu... E Ela estaria separada dEle.

Mas, então, por que vivia Ela ainda?...

Sua união com Ele era habitual e tão estreita que Ela Se tornara a Sua vida; e agora, na hora suprema, esta união ia ser rompida, quando Ela desejava o mais vivamente possível assemelhar-Se a Ele!

Como, pois, era prodigioso o amor de Maria, para obedecer assim à vontade de Seu Filho no Calvário, vontade esta que Lhe prescrevia a separação e a obrigava a prolongar a Sua vida durante vinte e quatro anos de um incompreensível martírio! (Dizemos 24 anos, na opinião de que Maria viveu até 72 anos; mas uma outra diz 63 anos)

A segunda causa da aflição para Maria foi o ser Ela testemunha ocular da Paixão, sem poder aliviar os sofrimentos do Seu divino Filho. As revelações dos santos nos ensinam que a Santíssima Virgem, embora corporalmente ausente do Getsêmani, assistia em espírito e seguia interiormente às diversas fases da agonia do Salvador.

Mas Ela estava corporalmente presente no caminho do Calvário, e na crucifixão; Ela O seguia e assistia (com que dor!) a cada nova tortura que a impiedade judaica inventava para aumentar os sofrimentos do Seu Filho. Ela assistia a tudo, via tudo e Se desolava por não poder proporcionar o menor alivio a Jesus.

Os espinhos faziam o sangue correr lenta e penosamente, sobre os olhos do Salvador, e Maria não podia Se aproximar para enxugá-lO.

Os lábios de Jesus estavam ressequidos e descorados pela sede, e a Mãe desolada nem sequer podia ir depor neles [um refrigério].

Esta cabeça dolorida, admirável aos olhos dos anjos e tão divinamente radiante de dor e de amor, desaparecia sob o pó, o suor e o sangue... e a Virgem nem mesmo podia, como a Verônica, enxugá-la com o Seu véu, e lavá-la com as Suas lágrimas.

Depois, Ela vê o Seu Filho suspenso no patíbulo dos malfeitores, com as mãos e os pés trespassados, e com o corpo sangüinolento e lívido. A cabeça do divino paciente cai para trás, os espinhos penetram mais fundo, e, inclinando-Se para a frente, todo o corpo fica suspenso dos pregos, que Lhe dilaceram mais as Suas mãos delicadas.

Oxalá pudesse Ela sustentá-lO nas Suas mãos maternais e deixá-lO repousar nelas até à hora suprema, em que Ele deve morrer!

Mas, não! Esta última consolação não Lhe será dada, senão depois que Ele tiver expirado.

Uma terceira fonte das dores de Maria é a visão distinta que Ela tem do pecado, e a apreciação que Lhe inspiram as cenas sangrentas da Paixão e do Calvário.

Com efeito, não podemos duvidar de que Nosso Senhor tenha permitido que Ela participasse, em certa medida, do Seu conhecimento sobrenatural da extensão do pecado, da sua excessiva malícia e do ódio que ele excita em Deus, conhecimento este que distinguiu Jesus e deu aos sofrimentos da Sua Paixão o seu verdadeiro caráter.

Foi a visão do pecado que crucificou a alma de Jesus no Jardim das Oliveiras; foi à visão da cólera do Seu Pai contra o pecado, que Ele pediu com tanta tristeza que Se Lhe afastasse esta cálice.

Lemos que Santa Catarina de Gênova caiu desfalecida, um dia, quando Deus lhe mostrou, em uma visão, que horror é preciso ter a um só pecado, mesmo venial.

Em Maria não podia haver este desfalecimento, pois os dons que Lhe havia outorgado o Seu divino Filho ultrapassavam os dos santos, o mais que poderíamos dizer; por conseguinte, o Seu horror ao pecado sobrepujava a todas as nossas concepções. Deste modo, apareceu aos Seus olhos, sobre os ombros chagados do Seu Filho, a visão hedionda e repelente dos pecados do mundo inteiro.

Ela via como era verdadeiramente a Deus que o pecado atingia, ofendia e cobria de opróbrios. O terror que deles sentia o Salvador fazia-Lhe sofrer mil mortes interiores.

Faltam-nos palavras para pintar um tal suplício. Enfim, a estas fontes tão cruéis de sofrimentos acrescenta-se a perda prevista de tantas almas, para as quais o sangue divino ia ser inutilmente derramado. É a quarta fonte.

Pensemos no valor de cada gota deste sangue divino. Ele foi derramado para cada alma em particular; e, entretanto, quantas almas perdidas para a eternidade! Eis o preço que Cristo pagou para o resgate das almas; e, entretanto, Ele vê desaparecer o Seu valor.

Se uma só alma, para a qual toda esta Paixão foi sofrida de propósito, tivesse que perecer para toda a eternidade, tornando inútil, pelas suas ofensas, o amor do seu Salvador, que angústia imensa era a Sua dor, pois que não era só uma alma, um número incalculável delas que haviam de perder-se!...

Ah! Jesus sofria, sobre a Cruz, uma outra crucifixão invisível, e muito mais angustiosa do que aquela que aparecia aos algozes e aos espectadores; era a crucifixão de um coração saciado de sofrimento ao pensar na multidão inumerável dos que se separariam dEle, que deixariam de ser Seus membros e que se perderiam irrevogavelmente.

Também neste cálice Maria teve o Seu importante quinhão. E se, neste momento, Ela discerniu o que este pensamento Lhe fazia sofrer por causa do Seu imenso amor a Jesus, e por via de conseqüência, por causa do Seu imenso amor às almas, Ela viu então dois abismos separados e hediondos, nos quais Ela devia entrar voluntariamente, apesar do horror que deles A afastava.

E nesta multidão de pecados, cujo peso torturava a alma virginal de Maria, estavam os nossos próprios pecados. A Virgem os distinguiu, e o Seu olhar cheio de lágrimas elevou-se ao céu, para implorar-nos o perdão e a misericórdia.

Quando, enfim, amaremos nós aquela que nos amou tanto, e que, para provar-nos o Seu amor, submeteu-Se a angustiosas torturas e a suplícios intensos!

Digamos-Lhe, portanto, com a Igreja: "Ó Mãe, ó fonte de amor, fazei que eu sinta a Vossa dor, e que eu chore conVosco".

"Eia Mater, fons amoris,
Me sentire vim doloris
Fac ut tecum lugeam!"

(Por que amo Maria, pelo Pe. Júlio Maria, continua com o post: Caracteres das dores de Maria)
 

A dolorosa paixão de Maria


 

Antes de considerarmos pormenorizadamente as imensas dores da Virgem-vítima, lancemos um olhar sobre o conjunto do Seu martírio, para compreendermos o Seu lado íntimo, que é, sem contradição, o mais penoso e o mais comovente.

O Filho de Deus Se fizera homem. A Virgem possuía o Desejado das colinas eternas. Ele Se tornara Seu Bem-Amado, o nosso Emanuel.

Haviam decorrido quarenta dias, dias de êxtase, quando Ela é obrigada a Se apresentar no templo de Jerusálem, para as cerimônias do resgate de Jesus, como o primogênito, para a Sua própria purificação. Era a lei.

O velho Simeão acabava de entrar no templo, ao mesmo tempo que a sagrada Família. Toma o Menino em seus braços, e, sob a inspiração do Espírito Santo que o animava, estava prestes a entoar um cântico de alegria. De repente, o seu rosto se perturba, os seus olhos cheios de lágrimas, fixam-se em Maria, e ele percebe, em uma visão profética, tudo o que esta Mãe terá que sofrer. Ele exclama, designando Jesus:

"Ele será o alvo de contradição". E em seguida, dirigindo-se a Sua Mãe: "Uma espada de dor trespassará a Vossa alma".

Maria escutara em silêncio esta terrível predição. Parece que Simeão não profetizou senão para Ela somente, ele, que é o profeta do gládio!

O lúgubre porvir apareceu-Lhe então: o Seu Jesus será imolado um dia, e Ela já Se imola com Ele.

Nobre filha de Israel, como o sofrimento já se torna, desde esse momento, a Vossa partilha! Desde esse dia ficais ciente da sorte que aguarda o Vosso Filho e Vosso Deus. E quem poderá descrever as Vossas apreensões? Elas eram ao mesmo tempo terríveis e delicadas. Terríveis pela sua intensidade, e delicadas na sua formação, pois, tinham, ao mesmo tempo, algo de Virgem e algo de Mãe.

Receios virginais que uma sombra é suficiente para aumentar, terrores de mãe que Lhe fazem apertar o Seu tesouro contra o seio, como para ocultá-lO aí. A nossa natureza, pecaminosa e endurecida, tem dificuldade em calcular semelhante inquietação. Ela Lhe provinha dos acontecimentos: o massacre dos inocentes, a fuga precipitada para o Egito, a perda de Jesus. Pobre Mãe, desde então Ela não viveu mais!

Um único pensamento deve ter ocupado a Sua alma: "Virão procurá-lO? Seria agora, quando me vejo separada daquele que é toda a minha vida?"

Ela Lhe sobrevinha no calmo retiro de Nazaré da leitura dos livros santos. "O Cristo será entregue à morte", dizia Daniel.

"Transpassaram minhas mãos e os meus pés, e contaram todos os meus ossos", Lhe explicava Davi. Que pressentimentos deviam dar-Lhe estas passagens! Que terror secreto!...

Inquietação que trazia, enfim, o pensamento do pecado, e que era o mais terrível. Ela sabia que o Seu divino Filho era o Redentor, o Salvador; que Ele vinha para resgatar os homens, e tomar sobre Si todas as suas iniquidades. Este pensamento enchia-A de admiração, mas também a mergulhava num terror horrível. A iniquidade de todos cair sobre o Meu Filho, ó céus, que cargo terrível!

Um violento combate, diz S.Tomás de Vilanova, devia se travar nela então. Dois amores gigantescos estavam em luta no Seu coração, como em uma arena: o amor de Seu Filho e o amor do gênero humano, que devia resgatar. - Pugnabant igitur in Virginis corde, ut in campo plano, duo illi gigantes amores, amor Filii et amor mundi, sesumque Virginis in diversa trahebant.

O primeiro Lhe fazia aborrecer a morte, e o segundo Lhe fazia aceitá-la. Ela era mãe, e o Seu coração, com toda a Sua energia, repelia a morte. Mas, como Mãe do Redentor, Ela dizia ao gládio do dia da apresentação: "Oh! trespassai-me, antes de trespassá-lO!"

E, depois desta hora, decorriam os dias, cheios de alegria que Lhe causava a presença do Seu Jesus. Mas também cheios de amargura e dos sofrimentos, que trazia ao Seu coração este pensamento constante: um dia Ele será imolado!

Apertando nas Suas as mães tão ternas de Jesus, parecia sentir já os pregos que deveriam atravessá-las. Abaixando a Sua fronte tão pura, Ela já sentia a coroa de espinhos. Estreitando-o ao coração, Ela já O contemplava, em espírito, coberto de sangue e de feridas, com o lado aberto e derramando por sobre os homens, até à última gota, o Seu sangue divino.

Ó dor e angústia da ternura materna!

Como em liras perfeitamente acordes, que ressoam uníssonas, a oblação de Jesus era a oblação de Maria. Seus corações estavam inebriados juntamente, com o pensamento de sacrifício. Depois, veio a hora da separação.

Jesus começa a Sua vida pública. Novos temores para Maria! Sem dúvida, o dia do sacrifício se aproxima a grandes passos! Ela o prevê e o espera. O ódio dos fariseus já Lhe é conhecido. Perseguem o Seu Jesus. Querem apoderar-se dele. Depois, numa tarde, vêm-Lhe dizer: Jesus está preso. Gente armada de bastões, cordas e gládios, prendeu-O no Getsêmani, guiada por um traidor, e O conduziu a Caifás.

Oh! que nos reserva o dia de amanhã?...
Que terrores não sentiu esta desolada Mãe!...

Jesus esta preso! e Ela é impotente para libertá-lO, para aliviá-lO. Jesus, longe dEla, nas mãos de Seus mais implacáveis inimigos! Que tristeza, que dor!... estar separada de um Filho tão amado, já condenado infalivelmente, de antemão, e nada poder fazer para unir-Se a Ele.

É o supremo sofrimento!

Que terror, quando Lhe dizem: Quem o julga é Caifás, é Pilatos, é Herodes.
Pobre Mãe! Quantas dores!...

E quando Ela reencontrou o Seu Filho na encosta que conduz ao Calvário, Ele havia sofrido de tal modo, desde a Sua separação que Lhe apareceu como não tendo mais algo de humano! Isaías Lho havia feito compreender. E o Seu coração não A enganara.

Que momento, quando os Seus olhares se encontraram!
"Meu Filho!"
"Minha Mãe!"

E Jesus subia até ao lugar de execução; e Maria, acompanhada de algumas piedosas mulheres, seguia o "Homem das dores".

Enfim, eis que o Cordeiro de Deus chegou até o cume do Gólgota. Maria bem sabia que Ele devia ser o Homem das Dores. Mas, quando a realidade veio e apareceu aos Seus olhos, quando Ela percebeu o corpo de Seu Filho dilacerado e triturado pelos azorragues da flagelação da manhã, quando Ela viu o Seu rosto, extenuado e irreconhecível, jorrando sangue, inundado do suor da morte, a cabeça encerrada num feixe de espinhos, o brado de Sua alma foi: "Oh! como os profetas o haviam dito bem! e como são sobrepujados os meus receios! Em que estado, pois, puseram o meu Bem-Amado!"

De fato, as Suas suspeitas e Sua previsões eram excedidas. As profecias estavam realizadas ao pé da letra. Agora compreendia melhor o sentido da palavra de Isaías; o Seu coração de Mãe se esforçava por compreender toda a extensão do "Ele será o Homem das Dores!" Seu espírito e Seu coração procuravam penetrar a fundo o sentido destas outras palavras: "Transpassaram minhas mãos e meus pés e contaram todos os meus ossos".

Pobre Mãe, Ela havia interpretado que eles contariam os Seus ossos, depois que Ele estivesse morto, ao passo que Ela mesma poderia contá-los, no corpo hirto do Seu Filho.

Chegou o momento supremo do holocausto!

Lágrimas e gemidos dos mártires nunca se podem igualar, mesmo em conjunto, à vivacidade e à imensidade das dores que a divina Mãe sofreu no Seu peito oprimido! Tão cruel era ao Seu coração o espetáculo do deicídio, que se desenrolava ante Seus olhos. Os algozes lançam Jesus sobre a Cruz. Ela percebe então os cravos com que vão pregá-lO; Ela ouve os golpes do martelo; Ela vê a crueldade do suplício, que jamais fora aplicado ás vítimas imoladas no templo, ou aos criminosos executados fora dos muros.

Os buracos preparados na madeira da Cruz, estão demais afastados; e eles empregam cordas, para puxarem violentamente os membros, que neles devem ser pregados. Ela ouve o estalar dos ossos,vê os músculos torcerem-se e percebe os suspiros de sofrimentos e os gemidos do Seu Filho. Ergue-se, enfim, a Cruz, e com que sofrimento balança-se um instante no ar, por cima dos assistentes, e fixa-se no solo.

Sobre a Cruz o corpo suspenso do Filho de Suas entranhas... E a Mãe das dores, em face do Homem de dores, pôde dizer, a nós e aos pecadores de todos os séculos: "Ó vós que passais por este caminho, considerai e vede se há uma dor semelhante à minha dor!"

E todos os séculos Lhe responderam: "A quem comparar-Vos, ó Virgem, filha de Sião? O excesso dos Vossos males é semelhante à extensão dos mares".

Sim, o profeta procurara em toda a natureza a quem poderia comparar a imensidade desta dor, que o Espírito Santo Lhe mostrava numa visão longínqua, e não encontrou senão o mar, cuja extensão, profundidade e largura puderam figurá-la.

E esta dor, cuja amargura tinha o infinito, o horroriza, pois é o preço da salvação da humanidade; a Santíssima Virgem vem colocar-Se, heróica e sublime, ao lado da Cruz.

"Stabat"! Ela estava em pé! Esta única palavra basta para narrar o prodígio de Sua intrepidez, assim como as palavras: "Faça-se a luz", fiat lux, haviam sido suficientes para dizer, desde a origem, que milhares de focos foram acesos no firmamento.

Jesus está abandonado por todos na terra, mas a sua Mãe está de pé ao Seu lado. Ela reconhecia, através de todas as Suas humilhações e de todos os Seus sofrimentos, o Cristo Redentor, o Homem das dores, vítima de Seu amor, o Homem-Deus.

Ela fica aí, de pé! E esta Virgem, seguramente a mais delicada e a mais tímida de todas as virgens, afronta os fariseus, os carrascos, a multidão, e até o inferno desencadeado contra o Seu Filho. Ela contempla as Suas chagas lívidas, os cravos que O contundem, o sangue que O cobre, todos estes sofrimentos e todas estas dores que O esmagam em um como lagar. E, esmagada Ela mesma, sucumbe a estas chagas, a estes cravos, a este esmagamento, a este esgotamento.

É a paixão e a compaixão ao mesmo tempo.

Seus olhos se encontram, Seus olhares se confundem, Seus corações comunicam entre si os Seus pensamentos, por uma linguagem secreta e cheia de ternura.

Ele Se oferece, e Ela O oferece pelos nossos pecados.

Jesus diz: "Perdoai-lhes". E Maria pede com Ele este perdão.

Jesus diz: "Tenho sede". E, com Ele Maria, tem sede, sede de almas.

Jesus diz: "Tudo está consumado". Ele deu tudo, e Ela também deu tudo, não poupando sequer o Seu próprio Filho, nem a Si mesma.

Ele dá um alto grito e expira. Ela não pode expirar, mas o Seu coração entra nos transes da morte.
(Jos. Lémann)

E quando O despregaram da Cruz e O puseram nos braços de Sua Mãe, Ela pôde, então, contemplar à vontade este corpo desfigurado e lívido, coberto de chagas e de sangue; Ela pôde sondar as chagas das mãos e dos pés, a chaga do lado, sobretudo, que dava entrada ao Seu coração. Um último brado escapava-se do Seu coração de Mãe:

"Meu Filho!"

Ó terna Mãe! dai-nos a graça de compreender este oceano de angústias e de torturas que fizeram de Vós a "Mãe das dores", para que participemos um dia das Vossas dores por nós e Vos consolemos pelo nosso amor e nossa fidelidade!

(Por que amo Maria, pelo Pe. Júlio Maria)
 

As dores de Maria

"Tão grande foi a dor da Ssma. Virgem, que,
distribuída por todos os homens,
ela bastaria para fazê-los morrer a todos,
na mesma hora".
(São Bernardino de Sena)


1- O fundamento destas dores
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1- O FUNDAMENTO DESTAS DORES


A maior prova de amor que podemos dar àqueles que amamos disse Nosso Senhor, é dar a vida por eles. Maria devia dar esta prova de amor para conosco, senão morrendo, ao menos sofrendo torturas capazes de dar mil vezes a morte.

Associada à obra redentora, Ela devia suportar o Seu peso e ter Seu Calvário, como Jesus tivera o Seu.

De fato, a obra da redenção é, antes de tudo, uma obra de expiação e de sacrifício, e poderíamos dizer: "uma obra de sangue". Pois, observa São Paulo. "sine sanguine non fit remissio", sem efusão de sangue não há perdão.

Além disso, tudo, neste drama, parece girar em torno de dois eixos: o amor e o sangue.

O amor irradia por toda parte, com uma intensidade toda divina e tudo se desenrola no seio de uma nuvem sombria e sangrenta, sem jamais poder sair dela. Jesus Redentor segue primeiro o caminho do sacrifício e da imolação. Desde o primeiro instante até ao último, o sofrimento em Sua vida é o elemento que domina todo o resto. Ele o acompanha a Belém, a Nazaré, ao Egito. E no decorrer do Seu ministério público, vemo-lO como semeado sobre todos os caminhos da Judéia, da Galiléia, da Samaria. E, em Jerusalém, teve o Seu apogeu, e no Calvário a Sua última coroação.

Todos aqueles que colaboraram na obra de Jesus, foram submetidos também ao sofrimento, na medida em que tiveram de auxiliar o Redentor e que quiseram ser-Lhe úteis.

Ora, dizem os santos padres, estava marcado nos desígnios de Deus que assim como um homem e uma mulher haviam perdido o gênero humano, também um outro homem e uma outra mulher deveriam reerguê-lo: o homem como redentor e a mulher como co-redentora.

Deste modo Maria Se encontra associada à grande restauração, em um grau de intimidade, que jamais criatura alguma possui. Mas, o mesmo decreto divino que A proclama "Mãe de Deus", proclamou-A também "Rainha das dores". Associada como era à grande obra de Seu Filho, Ela sofreu a conseqüência necessária, que foi a Sua participação nos sofrimentos de Jesus. A Sua qualidade de Mãe valeu o privilégio de aí entrar muito antes que todos os outros, e Ela devia ir assim até o último extremo que uma criatura possa atingir no sofrimento.

Tal foi o fundamento das dores de Maria. Aqueles que realizam juntos uma obra, devem ter em comum as Suas obrigações, como devem participar também dos seus benefícios. Maria estará na glória, quando tudo estiver realizado; mas, antes, Ela deve estar no sofrimento.

Por conseguinte, Maria teve que sofrer como Mãe do Verbo encarnado, porque, por este título, Ela deveria estar submetida à lei da redenção, que é uma lei de sofrimento. Ela tinha que ser associada à paixão, não como um instrumento insensível, mas para que os Seus sofrimentos se ajuntassem aos sofrimentos de Nosso Senhor, para a redenção dos homens.

Ora, a esta razão geral vêm juntar-se outros pontos de vista, que mostram quão conveniente era ser Maria a Mãe das dores. De fato, Deus devia fazer resultar, das dores de Maria, uma grande glória, pois Ele manifestava magnificamente, neste mistério, os Seus principais atributos.
(P.S.M. Ledoux: A mais aflita das mães)

Nada era mais capaz de pôr em relevo o poder de Deus do que o concurso eficaz que daria ao reerguimento de todo o homem sobrenatural, uma criatura que, na aparência, não tem de notável senão a sua fraqueza e impotência.

A sabedoria divina não se mostra aí menos admirável.

Ao lado do Homem novo que sofre para reparar os prazeres culpados do primeiro homem, felizes somos em saudar esta Virgem humilde, forte, imaculada, que sofre igualmente, que apaga a lembrança desoladora da Eva orgulhosa, a antiga vítima de Satanás.

Enfim, a caridade de Deus brilha aí com todo o seu esplendor. Ele nos dá, não só um pai, mas uma mãe, um amigo, um Salvador, que pelos Seus inexprimíveis sofrimentos, nos merece a felicidade eterna; mas também Ele nos dá uma Mãe que é tanto mais Mãe, quanto mais teve que sofrer para o ser e para nos adotar.

Não é ainda tudo.

Suponhamos um instante que Maria tivesse sido isenta destas dores; o Seu reconhecimento para com Deus não teria exigido, por assim dizer, que Ela os pedisse? Aliás, não tinha Ela recebido de Deus a Sua Conceição imaculada e a Sua maternidade divina, tão grande em si mesmas e fontes de tantos outros privilégios?

Portanto, as Suas dores extremas e os Seus martírios eram, evidentemente, a única moeda que Lhe permitia pagar a Sua dívida, segundo os atrativos do Seu coração.

Maria era Mãe perfeita de um Filho perfeito. Ela não podia, pois, repudiar esta lei do amor, a glória e a grandeza de todas as mães, que lhes impõe a participação nos sofrimentos de seus filhos, como também ao gozo das suas alegrias, inseparáveis deles em tudo, por toda parte e sempre.

Também, em virtude deste princípio tão verdadeiro e tão nobre, Maria devia sofrer com Jesus e como Jesus. Além disso, Maria, que Se tornara a Mãe da cabeça, tornava-Se também a Mãe dos membros da universalidade dos humanos. Mas podia Ela aceitar este título, todo de amor, sem provar pelas Suas grandes dores, que, de fato, Ela vinha imediatamente após o Seu filho, pelo amor que tinha a todos os homens, Seus filhos?...

Depois, Maria devia ser também nossa Mãe. E era preciso que nós pudéssemos ir a Ela, não só com confiança, mas também com diligência. E assim era preciso que A víssemos puríssima, verdadeiramente poderosa e soberanamente boa.

Não era bastante.

O mais poderoso atrativo para nós, neste vale de lágrimas, devia ser o vermos que Ela também havia chorado, que havia tido uma vida saturada de toda espécie de aflições, e o coração transpassado por mil gládios. Esta auréola, qual diadema que A estabelecia Rainha dos mártires e Mãe das dores, era como o motivo que determinaria sempre, de um modo triunfante, todos os corações, mesmo os mais endurecidos e os mais desconfiados, a irem lançar-se aos Seus pés, e a depositar nEla toda esperança, no meio das maiores provações e das mais profundas misérias.

Vemos, por todas estas razões, quanto as dores de Maria se harmonizam como a glória de Deus, com a própria honra de Maria e com o bem dos homens.

Que motivo de amar a esta terna Virgem!

Triturada pelas nossas iniquidades como o Seu divino Filho, saturada de amarguras e de angústias, demos-Lhe a consolação de verificar que ao menos não é em vão que Ela sofreu por nós, e, sobretudo, que nós A amamos e que a nenhuma outra amamos senão A ela, depois de Jesus.

E que amor, aliás, será bastante forte para contrabalançar tantas dores sofridas por amor?...

(Por que amo Maria, pelo Pe. Júlio Maria)

terça-feira, 20 de março de 2012

Peregrinação ao Santuário de Nossa Senhora da Piedade

Prezados amigos,

Salve Maria!

Estamos organizando uma peregrinação para o Santuário Estadual Nossa Senhora da Piedade, em Caeté/MG, e, subindo a Serra da Piedade, suplicaremos à Nossa Senhora da Piedade que nos livre do flagelo do Comunismo e do aborto no Brasil, a exaltação e libertação da Santa Madre Igreja e a Consagração da Rússia ao Imaculado Coração de Maria.

Na ocasião também rogaremos pelas intenções particulares de cada peregrino, pela conversão dos pecadores e pela libertação da Missa Tridentina em todo o nosso estado, visto que Nossa Senhora da Piedade é a Padroeira de Minas Gerais.

A peregrinação se dará no dia 27 de maio deste ano. Haverá concentração de fiéis em Betim, Contagem e Belo Horizonte e desta última cidade, partiremos para Caeté. Àqueles que se interessarem, entrar em contato pela caixa de comentários abaixo deixando e-mail e/ou telefone para retorno.

Será uma oportunidade ímpar rogarmos à Santa Mãe de Deus a Sua singular proteção e adjutório.

In Iesum per Mariam!

*****

Prezados amigos,

Salve Maria!

Por motivos de força maior, esta peregrinação foi adiada para o dia 17/06/2.012. Maiores informações, aqui.

segunda-feira, 19 de março de 2012

Viva o Papa!!

 Em tempos de crise religiosa e eclesiástica – principalmente quando ela atinge as mais altas autoridades da Igreja – é normal aparecerem duas tentações opostas.


A primeira – e a mais grave – é a de revolta contra a autoridade do Papa, que pode levar ao cisma e à heresia.
A segunda – mais sutil – é a de, por respeito à autoridade, aceitar em silêncio os erros, ou fechar os olhos para os pecados de escândalo em que a autoridade possa a vir a incorrer.
No fim da Idade Média e no Renascimento, por exemplo, muitos católicos caíram na primeira tentação, aderindo a inúmeras seitas heréticas. Lutero e a Reforma – hoje tão louvados – levaram ao ápice essa revolta, ao atacarem o próprio papado, sob o pretexto de que havia corrupção em Roma, e muitos Papas daquele tempo eram conhecidos por sua vida escandalosa. Os heresiarcas confundiam a pessoa que estava no sólio de Pedro com o Papado em si mesmo.
Tantos foram os inegáveis escândalos de alguns papas desse tempo que entre os teólogos mais importantes se estudou, de novo, a possibilidade de um Papa cair em heresia enquanto pessoa particular, embora nunca enquanto Papa, exercendo o seu ministério “ex-cathedra”. São Roberto Belarmino, o grande Doutor da Igreja nessa época, foi um desses teólogos.
O Concílio Vaticano I – realizado em 1870 – proclamou o dogma da infalibilidade papal, estabelecendo que, quando o Papa ensina “ex-cathedra”, isto é, como Vigário de Cristo, com o poder dado por Nosso Senhor a São Pedro, ensinando toda a Igreja sobre questões de Fé ou de Moral, com a vontade explícita de definir uma doutrina e condenando a sentença oposta, o Papa é infalível.
Esse dogma da infalibilidade do Papa – ao qual aderimos do mais profundo de nossas almas – é a garantia de que a Igreja jamais errará. O próprio Nosso Senhor Jesus Cristo, ao dar as chaves a Pedro, lhe disse: “Tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja. E Eu te darei as chaves do Reino dos céus. Tudo o que ligares na terra será ligado no céu. Tudo o que desligares na terra, será desligado no céu. E as portas do Inferno não prevalecerão contra ti” ( Mt. XVI, ).
É sobre essas palavras santíssimas de Nosso Senhor que a Igreja se baseou para proclamar a infalibilidade papal. É nisto que se fundamenta a devoção que todo católico deve ter pelo Papa, seja ele quem for.
Os inimigos da Igreja sempre quiseram criar confusões acerca desse ponto, ora atribuindo ao Papa enquanto tal, e à Igreja, os pecados em que um Papa pode cair como pessoa particular, ora estendendo a infalibilidade a qualquer ação do Supremo Pontífice.
O Papa é infalível como supremo mestre da Igreja, ao se pronunciar “ex-cathedra”, mas isso não o torna impecável pessoalmente. Ao querer confundir infalibilidade com impecabilidade, os inimigos da Santa Sé buscam minar a devoção e a fé que se deve ter na infalibilidade pontifícia.
Ao pretender estender a infalibilidade a qualquer ação, discurso ou atitude do Papa, leva-se os fiéis a cair num erro que os porá em grave tentação, quando lhes ficar patente que o Papa – como pessoa particular – errou ou pecou.
Não se deve rejeitar a infalibilidade do Sumo Pontífice por causa de seus possíveis pecados ou erros pessoais, nem negar suas possíveis faltas morais por causa do brilho do carisma infalível de sucessor de Pedro. Quanto ao Sumo Pontífice, pois, é preciso sempre ter em mente que ele continua infalível enquanto Papa, mesmo quando pecador enquanto homem, e que ele permanece um homem possivelmente pecador e falível, mesmo sendo Pontífice infalível quando fala “ex cathedra”.
Para ilustrar o que dizemos, convém lembrar como agiu S. João Bosco no início do pontificado de Pio IX. Como se sabe, o Papa do incomparável Syllabus, o Papa da Imaculada Conceição, o Papa que proclamou o dogma da infalibilidade pontifícia teve, no início de seu pontificado, atitudes que muito favoreceram os liberais. Ele anistiou os terrorristas e carbonários presos nos Estados da Igreja, deu uma constituição liberal para esses Estados, nomeou um primeiro ministro liberal; enfim ajudou tanto os revolucionários que Roma se tornou o refúgio de anarquistas, carbonários e revolucionários de todas as gamas e de todos os tipos. Por isso, a Maçonaria fazia gritar pelas ruas das cidades italianas e por todo o mundo: “Viva Pio IX !”.
São João Bosco, que vivia então em Turim, ordenou a seus alunos que jamais gritassem “Viva Pio IX” e sim “Viva o Papa !” . Com isso, D. Bosco desfazia a manobra carbonária. Devemos gritar sempre “Viva o Papa”, pouco importando o nome daquele que está no trono de Pedro. Seja ele santo ou pecador, devemos manter ao Papa, “doce Cristo na terra”, como dizia Santa Catarina de Siena, nossa devoção filial e nossa fidelidade a tudo o que ele ensina, como legítimo sucessor de Pedro e com o poder das chaves.
Hoje a compreensão desses princípios é muito necessária, pois somos ameaçados por dois erros opostos com relação ao Papa: o sede-vacantismo e o infalibilismo universal.
Nós rejeitamos a ambos.
Há quem afirme que os últimos Papas, por sua adesão aos erros do Vaticano II – Concílio meramente pastoral e não dogmático, portanto falível e que, por isso, ninguém está obrigado a aceitar – teriam perdido o pontificado. Tese temerária, aventureira e imprudente, pois até hoje ninguém a demonstrou com provas claras e irrefutáveis. Essa tese põe os fiéis à beira do cisma, senão dentro dele.
De outro lado, os modernistas e progressistas, que viram suas idéias errôneas triunfarem no Vaticano II, procuram impingir aos fiéis católicos esses erros do último Concílio, como se fossem dogmas de Fé, o que é absolutamente falso.
Mais ainda, os defensores do infalibilismo absoluto e universal do Papa procuram fazer com que os católicos julguem qualquer discurso do Papa – até mesmo um simples discurso de acolhida de turistas – como se fosse um dogma de fé, nivelando um texto pastoral, ou um discurso de cortesia, aos pronunciamentos “ex-cathedra”. Isso também nós não podemos aceitar. Por exemplo, a famosa jornada de orações pela paz, realizada em Assis por João Paulo II, em 1986, se opôs frontalmente a tudo o que a Igreja sempre ensinou quando, em reiterados pronunciamentos dos Papas, condenou o intercofessionalismo e o indiferentismo. Tal jornada é inaceitável.
O Papa, não é demais repetir, só é infalível quando ensina “ex-cathedra”, ou quando repete os ensinamentos de todos os Papas anteriores (Magistério Ordinário Universal). Fora disso, pode errar. Por isso, é legítimo rejeitar os erros do Concílio Vaticano II e tudo o que se tem feito com base neles, na medida em que contrariam os ensinamentos de todos os Papas anteriores.
Ter devoção ao Papa é dever de todo católico. Mas o próprio Papa reinante deve ter devoção ao Papado. Também João Paulo II tem obrigação de aceitar tudo o que os Papas anteriores a ele ensinaram “ex- cathedra”.
É, pois, com verdadeira devoção católica à Cátedra de Pedro que exclamamos de toda nossa alma “Viva o Papa!”, qualquer que ele seja.
Um dia, Cristo perguntou aos apóstolos: “Quem dizem os homens que eu sou ?” Os apóstolos responderam : “Uns dizem que és Elias, outros dizem que és João Batista que voltou “. E Cristo ainda: “E vós quem dizeis que eu sou ? “. Eles se calaram, não sabendo o que dizer.
Não sabiam o que dizer, após terem visto tantos milagres. Não sabiam o que dizer, após terem ouvido tantas verdades.
Até que S. Pedro proclamou: “Tu és o Cristo, filho de Deus vivo!”
Hoje, Deus nos pergunta: Que dizem os homens que é o Papa? E alguns respondem que ele é um homem comum, outros – hereges – ultrajam-no, dizendo-o o anticristo.
E nós, quem dizemos que é o Papa?
Ele é Pedro redivivo. Ele é, de fato, plenamente, “o doce Cristo na terra”. Com Santa Catarina de Siena repetimos essa afirmação tão doce ao nosso coração de católicos, tão cheia de verdade, dessa Verdade que, desde o batismo, é a luz de nossas almas e de nossas vidas.
Sim, nós temos certeza. Nós, católicos, somos filhos da certeza. E com a certeza que nos dá a palavra de Cristo e o dogma da infalibilidade papal, firmes sobre a pedra, nós dizemos com toda força de nossas almas: o Papa é Pedro reinando em Roma. O Papa é o vigário de Cristo. E quando esse século maldito nos interroga com sua boca atéia ou com sua língua progressista; quando ele, sorrindo irônico, duvida de nossa fé; quando nos ameaça e nos interroga, dizendo: “E quem é o Papa ? ”, com ufania lhe respondemos que ele é nosso Pai na Fé.
Depois de séculos de santidade gerada pela Igreja e por sua doutrina, infalivelmente repetida pelos papas de todos os tempos; após dois mil anos de milagres, como não saber responder a esta pergunta que o mundo, hoje, nos faz com insolência: “E quem é o Papa? ” O Papa é a Rocha sobre a qual Nosso Senhor edificou a Sua Igreja.
E quando esse século subjetivista e evolucionista, que de cada pseudo-cientista ou de cada guru faz um “papa” infalível, repele os Papas do passado porque pensa que tudo evolui, nós lhe respondemos que passarão os céus e a terra, mas as palavras do Papa, falando “ex-cathedra” jamais passarão.
Disse um poeta, que é fácil acreditar na luz, ao meio dia. Difícil é crer no sol, à meia noite.
Era fácil acreditar e ter verdadeira devoção ao Papa, quando em Roma reinavam São Gregório VII, Pio IX ou São Pio X. Difícil foi manter a verdadeira fidelidade e a verdadeira devoção ao Papa, em Avignon, ou no tempo do Grande Cisma do Ocidente, ou na corte de Roma renascentista.
Difícil ainda mais é manter fidelidade à Igreja e a verdadeira devoção ao Papa, nestes dias de trevas, durante o eclipse do sol católico, causado pelo Vaticano II.
É pois em meios às trevas modernistas do Vaticano II, odiados e incompreendidos pelos que erram à esquerda, e mesmo à direita, que proclamamos com Fé: Nós cremos na Igreja Una, Católica Apostólica e Romana. Nós cremos no Papa! Viva o Papa ! Viva o Papa, doce, doce Cristo na terra.

(negritos nossos)