Por Annales
Historiae, com pequenas adaptações.
Não me perguntem o que eu acho deste ou daquele
pronunciamento, desta ou daquela conversa, do discurso diante de seminaristas,
de encíclicas, de canonizações estilo fast-food ou de imagens
pornográficas nos jardins vaticanos. Não me perguntem o que penso desta ênfase
em se mostrar humilde, destes gestos, desta ânsia em querer simplificar tudo,
em mudar tudo, reformar tudo, como se a reforma visasse apenas a estrutura
burocrática, humana. Não, ela não visa somente isso, e por isso mesmo ela soa
como uma blasfêmia aos meus pobres ouvidos de pecador.
Para ser franco, não me perguntem e nem me falem de
mais nada do que ocorre hoje, pois este pobre pecador se encontra incapaz de
suportar mais um pronunciamento, mais um gesto, mais uma escultura, mais uma
canonização, mais um discurso ou uma missa sobre um altar de marinheiros. E por
isso mesmo, debilitado, ovelha perdida, que recorro em silêncio ao Pastor
celestial, que tanto tem para me dizer, para me confortar, para me acolher em
sua Verdade, sem delongas, sem passar a mão sobre a minha cabeça, sem querer me
desviar de suas próprias leis. Sim, é Nele que encontro o manancial de águas
límpidas, as águas da fé que não se misturam em templos de candomblé, que não
se esvaem pelo esgoto fétido das heresias protestantes. É Nele, por Ele e para
Ele que ainda creio, mas creio por meio da Igreja, e não nesta igreja.
Sim, a igreja que saiu do Concílio das mil maravilhas morreu, esta igreja com i minúsculo, da qual restou apenas este edifício carcomido que a cada dia derrama suas insanidades sobre os espíritos tão confusos, tão perdidos, não é a Igreja militante de sempre.
Entretanto, mesmo confrontado com esta verdade tão
límpida, tão clara como a luz do sol, que muitos, por não serem águias,
preferem ignorar, mantenho-me firme, pois acredito que a Igreja triunfará,
intacta, pois seu edifício resplandecente não pode ser atingido por estes
homens, por você, por mim. Sim, a Igreja de sempre ainda está aqui, diante de
nós, para nos mostrar o caminho seguro, a vereda que nos levará ao Céu.
Por isso, se querem me perguntar alguma coisa,
perguntem-me sobre as grandes encíclicas de São Pio X, de Pio XII, de Leão
XIII; perguntem-me sobre São Pio V, São Gregório, São Leão Magno, sobre
São Bernardo, Santa Joana d'Arc, São Luís, São Francisco – o verdadeiro -, sobre
santos que, mesmo exalando o odor da santidade, passaram pelo crivo da Igreja,
como se deve, sem atalhos, sem os "jeitinhos" da vida. Perguntem-me
da Idade Média, de seus reis trabalhando com a Igreja por uma sociedade justa,
fraterna; perguntem-me das histórias, das lendas, dos contos das Cruzadas, até
mesmo da grandiosa Inquisição. Perguntem-me da Missa católica, aquela odiada
por Lutero, vilipendiada em nossos dias pelos padres que deveriam amá-la e
defendê-la com todas as suas forças; perguntem-me dos cânticos, dos grandes
teólogos, dos grandes escritores; perguntem-me de Bossuet, de São Tomás, de
Fénelon, de Delassus, de Salvany, de Suarez, de Alberto, de Alcuíno. Mas, acima
de tudo, perguntem-me Daquela cujo coração imaculado triunfará no fim de tudo
isso, Daquela cujo esplendor e santidade ofuscam a todos nós, pecadores.
Perguntem-me da Santíssima Virgem, a quem, neste momento de dor e de confusão,
de quase desistência, confio meus últimos suspiros.
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